11
Jan 11

Ancestrais ilustres Portugueses na Umbanda.

A vossa bênção meu, Caboclo, benção meu Preto Velho...

 

A Umbanda assenta na premissa do poder da vontade Divina manifestada através dos Orixás na criação e manutenção dos espaços físicos e espirituais e simultaneamente reconhece, enaltece, preserva e fundamenta o Axé nas manifestações dos Orixás nos reinos naturais e espirituais (os Orixás não são a natureza mas manifestam-se nesta). Os altares naturais da terra são pontos de força destas manifestações poderosas: terra, agua, ar e fogo expressos nos oceanos, rios, florestas, campinas, pedreiras (montanhas, ravinas, etc) só para mencionar alguns. Na natureza buscamos limpeza e energia, saúde e regeneração e a ela devemos a vitalidade do Axé ou seja da manifestação vital. No entanto, a Umbanda exerce a sua actividade essencialmente no contacto com os planos espirituais, sendo que também aqui no campo do sobrenatural se expressa a vontade dos Orixás: através dos Ancestrais ilustres.

 

Ancestrais são então aqueles que nos precederam e ilustres por terem sido marcos importantes na evolução espiritual e por continuarem a ser veículos de transmissão dessa qualidade divina e da vontade dos nossos Orixás, fazendo eles a ponte para a transmissão do conhecimento, sendo Guias da humanidade na sua evolução espiritual, como decerto acontece noutras religiões ainda que obedecendo a outras apresentações e envolvências culturais (ver o exemplo dos apóstolos no Cristianismo e do profeta no Islamismo). Sendo a nossa religião originária do Brasil ainda que mesclando saberes e culturas de três continentes distintos (Américas, África e Europa), continua sendo no entanto marcada pela presença, exclusiva tanto quanto podemos perceber, de Entidades que se apresentam como ancestrais Ilustres do Brasil. O Caboclo, o Preto Velho, o Boiadeiro, entre outros são na realidade verdadeiros ícones do Povo Brasileiro na sua origem.

 

De tempos a tempos somos interpelados, quer pelo frequentador Português anónimo do Terreiro quer por irmãos de fé no Brasil, sobre a possibilidade da aparição de entidade de cunho Português, uma vez que se pratica esta religião continuamente no nosso país em diversos templos. Como resposta costumo dizer que desconheço se existe ou não alguma Entidade de cunho Português, actuando em algum terreiro mas acredito que existam espíritos com alguma encarnação anterior neste espaço a que chamamos Portugal a militar numa qualquer falange , eventualmente respondendo pelo nome de seu mentor, um Caboclo, Exu, Criança, etc.

 

Por um lado o espírito não tem fronteiras e as reencarnações obedecem a outros requisitos bem mais importantes para a evolução do Homem do que propriamente o espaço geográfico, linguístico ou cultural em que viveu. Por outro lado, a Umbanda está dando os primeiros passos fora do país em que nasceu. Temos ainda que reconhecer que os espíritos iluminados são na sua essência humildes e despem-se de individualizações que em nada iriam acrescentar às suas comunicações, como seja nacionalidade, profissão e status social; é óbvio que existem muitas escolas de evolução a que chamamos vulgarmente religiões e essa diversidade responde à necessidade dos povos, mas ao aderir a uma corrente ou escola, deve o espírito obedecer aos preceitos nela praticados, neste caso a identificação das entidades de acordo com os seus líderes e mentores. Temos necessariamente vários Caboclos da Lua, vários Pais Beneditos, sendo que todos eles militam numa corrente e numa linha , falange, sub-falange, etc, que responde como é óbvio ao primeiro e verdadeiro Caboclo, Preto-Velho, Boiadeiro, etc detentor desse nome. Por outro lado temos a questão do potencial simbólico transmitido pelo imaginário comum quanto se houve falar destes verdadeiros ícones de identificação de um povo. Tomando como exemplo o Caboclo, diria que ele é o Homem na sua acessão natural; em equilíbrio com o meio ambiente, conhecedor dos espíritos que habitam a natureza e exímio utilizador das plantas em banhos ritualisticos e de limpeza, defumações, detentor do conhecimento e do poder da cura pelas plantas, respeitador dos vários equilíbrios que se estabelecem nos ecossistemas que habita, etc. Se outrora foi considerado atrasado e sem civilização pelo homem branco dominante, tal como o s nossos queridos Pretos-Velhos escravizados e humilhados na sua qualidade humana, não é menos verdade caminhamos felizmente ainda que devagar para um verdadeiro reconhecimento destes povos , nos seus valores e culturas e entre aqueles que abraçam a espiritualidade , ou tão somente ecologistas convictos, cresce o respeito pelos conhecimentos ancestrais que possuem. Por outro lado, estes são símbolo ainda muito vivos e actuais, visto existirem ainda indígenas e por outro lado a escravatura acabou há muito mas na realidade subsistiram ainda situações pontuais de escravidão até ao século XX.

 

Se tentarmos encontrar ícones do Povo Português, recorremos quase sempre ao descobridor do século xv, que não abona a favor dos direitos humanos, quanto mais da evolução espiritual, pois tratou-se de um período de corrida aos tesouros de outros povos e continentes e mergulhou-nos na triste senda da escravidão; podemos ainda recorrer á raiz discutível deste povo já bastante mesclado por diversas raças (moçárabes, romanos, celtas, bárbaros do centro e leste europeu, cartagineses, etc) falo do povo Lusitano que era de facto bastante guerreiro e tinha ainda algumas práticas sanguinárias, tal como muitos daqueles que povoaram este espaço por milhares de anos antes de nós. Na verdade a história dos povos está repleta de vingança, sangue, ódio, enfim de um role interminável de situações históricas (inquisição na idade média ou sacrifícios humanos no período romano e pré romano, 2 guerras mundiais) que serviram para aprofundar o carma individual e colectivo destas nações. Veicular a ideia de optimismo é por si mesmo equivalente a remar contra a maré neste Velho mundo, cansado de uma história longa de destruição. Se falarmos no aspecto natural, podemos também verificar que exterminámos florestas, habitats inteiros empobrecendo essa mesma natureza em prol da agricultura e posteriormente da industria e assim reduzimos a quantidade de Axé que podemos usufruir das suas fontes como já referi. Claro que existem homens e mulheres bons, evoluídos e movimentos de progresso humano, mas o ambiente e a simbologia patentes nas diversas culturas europeias estão contaminadas por um passado de trevas.

 

Por tudo isto e porque a Umbanda se pratica por cá somente há cerca de 2 décadas (meia dúzia de anos de forma exposta e publica) creio ser ainda cedo para que se manifestem entidades de matriz cultural portuguesa ou europeia. Aguardo no entanto que tal suceda um dia, mas até lá verifico com agrado que aqueles que nos procuram, sendo na sua maioria portugueses, não sentem contudo qualquer barreira no contacto com as nossas queridas Entidades, nas suas exposições, escutando os seus conselhos e seguindo os seus ensinamentos, mostrando afinal que somos bem mais receptivos do que á primeira vista podemos parecer. Espero nesse sentido que Portugal possa servir de chão fértil para uma disseminação da religião por outras nações deste velho continente.

 

Saravá Umbanda,

 

Francisco de Ogum

Pai Pequeno

Terreiro de Umbanda Pai Oxalá e Mãe Iemanjá

publicado por Terreiro Pai Oxala Mae Iemanja às 17:11 | comentar | favorito
05
Jan 11

Caminhando

Caminhando...

 

Sempre que entramos num novo ano, muitos de nós, projectamos de certa forma o nosso caminho, seja em previsões, antecipações ou simples votos e promessas. Neste ano de 2011 eu desejo a todos um longo caminho! Um caminho de evolução, que espero, possa ser repleto de momentos de introspecção, ponderação e compassivo. De qualquer forma, mesmo que esse caminho se mostre mais acidentado do que à partida desejaríamos, estou certo que é o melhor caminho para o nosso crescimento. Por vezes o caminho é feito de dificuldade sem que nos apercebamos do real contributo que demos para que siga essa via... talvez essa resposta esteja numa outra vida... ou talvez não a queiramos ver nesta... ou quem sabe, estamos a ser afectados pelo todo ou seja pelo conjunto de almas com as quais partilhamos de alguma forma o caminho: família? Empresa? País? Mundo? Quem sabe?! De que forma conduzimos nossas expectativas de vida? Temos um tempo limitado em cada encarnação, para sermos inocentes, crescermos, descobrir-nos em todo o esplendor de nossa juventude, de nos entregar-mos e de crescer, produzir, etc. para além do óbvio escapa-nos por vezes o essencial: o tempo de evoluir. Como sabemos se estamos realmente a evoluir espiritualmente? Muitos caem na presunção das certezas vãs. Contudo, sabemos que temos que fazer o caminho, escolher um de entre vários e percorre-lo incessantemente. Seja qual for o caminho escolhido, deverás (digo a mim próprio) tornar-te progressivamente mais sensível ao mundo, desenvolver a tua empatia, viver e propiciar paz, procurar e difundir conhecimento, partilhar a tua consciência, fomentar a fraternidade, respeitar a diferença. Poderia continuar a indicar atributos de evolução, mas de que serviria se na maioria das vezes somos parciais na auto-análise? Tendemos a contextualizar as nossas faltas, a desculpar nossas intromissões, omissões e justificar as nossas ofensas, ou pelo menos a disfarçar o seu real alcance. Ao contrário, elevamos nossos sofrimentos ao altar da auto-piedade, colocando-nos à frente dos demais, exacerbando a falta de compreensão para com os nossos propósitos, palavras ou acções, enfim... estou certo que não devemos julgar a ninguém e duvido muito da capacidade de nos julgar a nós próprios pois invariavelmente cairemos na parcialidade. Enquanto seres viventes, estamos permanentemente limitados na consciência e na percepção e desta forma mostramos de uma forma mais autêntica o nosso âmago. Deus e os Orixás facultam-nos muitos recursos mas impõem esta limitação por certo com propósito. Na verdade, aquilo que um espírito carrega de uma vida para outra revela-se muito mais no inconsciente e no subconsciente e assim sendo, esta será a prova da autenticidade dos aprendizados a que nos propomos. Por este mesmo motivo, me envergonho de algumas exaltações, de umas tantas precipitações entre outros limites que reconheço manter, mesmo sabedor do impacto e do significado que têm no que se relaciona com o progresso espiritual. Tenho pois que instruir mais a minha mente e o meu coração, na bondade, na compaixão e na ponderação de modo a moldar melhor o meu "Eu" que se revela de quando em quando , menos do que já aconteceu em tempos, mas ainda assim muito mais do que seria de esperar por mim próprio. Não quero com isto fazer crer que nos devemos recriminar, pois cairíamos mais uma vez na auto comiseração e o que pretendemos é efectivamente prosseguir e para tal temos que perdoar as faltas cometidas, seja pelos demais seja por nós próprios sem que tal signifique uma fuga à responsabilidade! Por vezes, tendemos a  remoer acontecimentos marcantes, sejam causados por outros  sejam eles de alguma forma causados por nós e essas questões assumem ou podem assumir formas de vingança, raiva, ressentimento ou na melhor das hipóteses quando a consciência aperta, o remorso. Estes são sentimentos de extrema negatividade que acabam por atrair outros de igual magnitude. Temos que perdoar e pedir perdão, evitar a sua repetição e continuar o caminho do aprendizado. em ultima análise é errando que se aprende, se a humildade for nossa irmã e a segurarmos em nossos corações. A humildade permite-nos o aprendizado e o orgulho torna-nos estáticos, inflexíveis.  Votos para 2011?? sim.. que possamos todos continuar nesse caminho de evolução da única forma que conheço: caminhando.

 

Axé,

Francisco de Ogum

Pai Pequeno

Terreiro de Umbanda Pai Oxala Mãe Iemanjá

publicado por Terreiro Pai Oxala Mae Iemanja às 17:25 | comentar | favorito
27
Mai 10

Evolução espiritual, mais que uma necessidade, uma responsabilidade

Saravá a todos,

 

Nos tempos de incerteza que decorrem urge mais uma chamada de atenção: a evolução espiritual é urgente! Falo da evolução Espiritual individual, que afinal atinge a comunidade e acaba por afectar a todos. O mundo em que vivemos está a ser conduzido de forma paranóica e a nossa sociedade é frágil porque é corroída por concepções erradas, prioridades e valores distorcidos baseados na individuo! Não nego que a liberdade e o direito à expressão e opção de cada um deva ser respeitada e afirmada, essa é uma premissa e uma das vitórias civilizacionais alcançadas, pelo menos no mundo dito livre... mas por outro lado, abdicámos em grande medida do ser social que somos, do ser comunitário, solidário e comprometido com o bem estar do todo! Saímos da opressão social do individuo que existia no passado, para uma vivência assente no individualismo unívoco, egoísta e absurdo que funciona como um funil; nele colocamos as nossas responsabilidades para com o próximo, o cuidado dos mais necessitados, enfermos, idosos e crianças, do equilíbrio com o mundo natural e no fim desse funil obtemos apenas a vã glória da prosperidade material individual, que tudo comprimiu  de modo a evitar bloqueios ao seu caminho e objectivo! Seja como for, destroem-se a cada momento vidas,  num ápice, quando se substituem pessoas como quem substitui peças velhas de uma engrenagem com as mais variadas escusas. O sistema produtivo favorece a quantidade a baixo preço e para que isso aconteça, sem prejudicar o bolo que premeia aqueles que têm mais que o suficiente e deste modo se limitam a investir numa lógica de lucro fácil e sem grande envolvimento directo com a actividade, com as pessoas e com tudo o mais que lhes possa provocar constrangimento; hoje em dia um qualquer individuo com disponibilidade financeira,  pode tranquilamente investir e desinvestir, muitas vezes ditar a morte de organizações sem sequer ter noção do alcance dos medidas que potencia, e que muitas vezes equivale a deixar no desemprego milhares de pessoas, algumas delas sem alternativas já que o mesmo sistema dita que se deve aproveitar a energia e disponibilidade dos mais novos de modo a que dêem o máximo , mas quando atingem a meia idade passam a ser encarados como factores pouco produtivos e logo, dispensáveis! Onde está a ética? Onde fica a responsabilidade social? O ser humano encarnado esquece com grande facilidade que ele não é apenas o individuo, que a sua existência não se limita apenas ao seu corpo físico! Gastamos dinheiro, tempo e esforço para obter corpos esculturais, ou passamos dias de sofrimento sem comer, tristes e deprimidos por não o conseguirmos alcançar; enfeita-mo-nos com roupas e acessórios, perseguimos automóveis de sonho e "gadgets" audiovisuais como quem persegue o Santo Graal! No entanto somos apenas pequenas porções de uma grande realidade espiritual, tal como as gotas de água do mar não passam de pequenas porções de Oceano! Isoladas não fazem sentido, juntas são imensas e poderosas. Só através da conexão ao mundo espiritual que habita em nós poderemos de facto cada um, inverter o caminho da auto-destruição! Grande parte daqueles que sentem ou têm  de algum modo, uma vivência com o sagrado em suas vidas, acham-se impotentes perante a grande arquitectura do mundo e que o seu caminho afinal nada significará no computo geral das coisas... enganam-se meus irmãos, pois na verdade estamos interligados de tal forma, que o milagre individual que se opera em cada um , tem um reflexo sobre o todo, tal como é também verdade o caminho inverso! Estamos encarnados, distantes da condição  superior do espírito, mas no entanto podemos a cada momento restabelecer o contacto com o universo divino, seja com o nosso eu superior, seja com os nossos ancestrais ilustres, seja com as Potestades divinas! A Umbanda é um entre vários caminhos possíveis pois não existem caminhos absolutos nem verdades absolutas num mundo que não é de todo absoluto. Mas na Umbanda, temos o privilégio de aprender formas inteligentes de manter o contacto com o mundo espiritual... de contactar os nossos ancestrais ilustres, na forma das entidades tão sobejamente conhecidas de todos nós: Caboclos, Pretos-Velhos, Crianças ou outras; aprendemos a redescobrir a expressão dos Orixás no mundo natural , experimentando e sentindo o Divino em cada espaço natural, procurando a harmonia e o equilíbrio com o mundo natural; por fim aprendemos a encontrar Deus nas coisas,  sejam elas grandes ou pequenas, como nos homens sejam eles conscientes ou não da sua qualidade Divina. Por tudo isto, podemos afirmar que um individuo espiritualizado, é um individuo equilibrado e procura a harmonia e o bem estar do mundo natural, do ser humano e aberto ao progresso sob todas as formas, sempre em respeito e aceitação da diversidade, sem excluir outras verdades e outros caminhos! É pois urgente a espiritualização do Homem e do mundo para que possamos salvar a o planeta dos nossos próprios actos, para que nos possamos realmente evoluir buscando a felicidade e o bem estar de todos e não apenas de uma parte! Politicas e sistemas económicos à parte,  façamos o que realmente interessa, aprendamos a evoluir e partilhemos esse conhecimento com nossos concidadãos, para que esse manancial não se perca dentro do individuo e brote e frutifique e se dissemine, levando a luz de Deus a toda a existência, seja no plano material seja nos sub-planos espirituais que nos são afins!

 

Mais uma vez, desejos de paz e harmonia,

 

Francisco de Ogum,

Pai Pequeno


http://umbanda.com.sapo.pt

publicado por galileu às 11:41 | comentar | favorito

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