Borboletas e Traças

Saravá a todos,

 

Venho falar hoje da autenticidade, do amor e  da dedicação que alguns colocam naquela que é ou devia ser a nossa querida Umbanda. Sendo esta religião, uma forma inteligente de entrar em "contacto" se assim posso dizer, com o Astral Superior; se efectivamente acreditamos numa organização superior, em Entidades Espirituais de Luz, na reencarnação e na imperiosa evolução moral de todos os que por cá andam encarnados, então porque continuamos a assistir a beatos de amor fácil no verbo, na língua e nos gestos e de tão efémera perseverança na persecução dos seus caminhos? Não que seja um exclusivo da Umbanda, longe disso, pois povoam todas as religiões desde sempre. No caminho que percorro já há alguns anos ao lado de Pai Fernando, tenho-me deparado por vezes com indivíduos que cantam a Umbanda, que se emocionam a cada verso de um ponto cantado, que parecem beber as palavras de nossos Pais-Velhos com aparente devoção. No entanto, muitos deles apenas parecem querer alcançar um estado de Graça, que imaginam poder possuir! Crêem que talvez possam atingir a iluminação em vida e que desta forma possam viver sem dificuldades, sem negações, sem adversidades e que de alguma forma os Orixás se irão enternecer pelas suas qualidades para os favorecer acima de tudo e de todos! A realidade é bem distinta! É verdade que através de nossas queridas Entidades Espirituais, podemos atingir graças e bênçãos difíceis de imaginar e também é verdade que nos são indicados caminhos de melhoramento pessoal, caminhos esses que tendem a ser negligenciados... como se pudéssemos destacar do nosso Karma as partes que não nos interessam... como se de cupões de desconto se tratassem! Alguns devem pensar que podem apenas receber as bênçãos dos céus sem nunca se interrogarem que falhas possuem que possam impedir o alcance de suas reivindicações! É incrível que hoje em dia ninguém implore ou rogue o que seja... parece que estamos produzindo uma nação de mimados reivindicadores que se acham na posse de todos os direitos. Estas posturas, são por vezes disfarçadas por enganosas lamentações e vitimizações! Vitimizando-se dos seu infortúnio e de seu azar, o ser encarnado nega a si mesmo a realidade! Precisa de trabalhar para melhorar a sua forma de encarar a vida, o seu semelhante  e a si próprio! Mas voltemos ao cerne da questão:O que fazem estas pessoas num Centro, Terreiro ou Tenda de Umbanda? Ouvindo repetidamente as mensagens de seus Pais no Santo, das Entidades e lendo maravilhosos textos,  sobre o necessário espírito de missão, sobre o doar-se ao próximo e todas as qualidades que farão de nós certamente melhores como cidadãos, como almas em evolução e certamente mais próximos de nossas Entidades, então o que faz com que alguns destes filhos, acabem por participar em pensamentos, palavras e actos de tão recorrente desgraça que assola a nossa sociedade? refiro-me ao escárnio, à intriga, à inveja e por vezes ao orgulho! Sentimentos baixos, pensamentos negativos que não são mais do que auto-retratos daqueles que os carregam. Sem frontalidade, sem coragem nem capacidade de pensar com verdadeiro desprendimento de suas razões egoísticas, deixam por vezes cair a máscara.  Conseguem provocar em mim, confesso, alguns momentos de tristeza, pois sou humano e originam ainda em meu espírito alguma agitação, a ingratidão e o carácter vil de quem ousa conspurcar solo sagrado de forma tão infame ao invés de se dedicarem a servir com amor e humildade. Uma vez digeridas e assimiladas as desgraças humanas que teimam em persistir mesmo naqueles que parecem querer de facto, abraçar uma causa, com amor e dedicação, resta-nos olhar para os que realmente continuam serenos em sua jornada, trabalhando arduamente, labutando a cada dia nas suas vidas privadas e doando de si à causa, ao próximo, ao seu Terreiro e aos seus irmãos. É a visão destes que ao longo dos anos permanecem fieis, amorosos e sempre rejuvenescidos nos votos e na firmeza com que enfrentam as batalhas, que regressa efectivamente a minha serenidade! Agradeço pois a todos eles, que sabem verdadeiramente quem são! Agradeço por partilharem a mesma visão, por não se deixarem abater pela vida , pela maledicência nem pelos apelos do ego. É óbvio que aqueles que são médiuns e recebem as suas entidades, saberão como os nossos Pretos-Velhos, Caboclos, Exus, Crianças e outros nos ajudam e como nos deixam leves quando finalmente sobem até à Aruanda! Por tudo aquilo que tenho vivido nestes 7 anos de porta aberta, ajudando o Pai Fernando a construir uma casa de Caridade, que cresce paulatinamente e que tem pilares bem assentes, fundos e belos: As nossas amadas Entidades e os nossos mais leais filhos de Santo! Quando penso realmente nesta bênção, então revejo como somos apenas uma Luz que Brilha na escuridão da vida na Terra! Tal como as traças que são atraídas à luz e chocam na lâmpada que as ilumina, assim somos nós enquanto Casa de Luz, atraindo , tal como tantas outras casas tenho a certeza, as traças da vida! Parecem Borboletas, mas são apenas traças em busca da luz e na impossibilidade de entender a origem da Luz, lançam-se furiosas contra o seu âmago, tentando quem sabe roubar essa fonte de calor! A luz verdadeira meus queridos, aquela que tudo ilumina e perdura no escuro, essa luz não pode ser conseguida numa qualquer fonte! Ela tem que habitar no nosso coração! Tem que se renovar a cada dia! Só esta é se tornará infindável... só esta poderá continuar para além de tudo e da própria vida. Por isso, lamento as infelizes traças que vivem entre nós sem nunca conseguirem realmente atingir a sua própria luz. O mundo vive em profundo desequilíbrio e esse desequilíbrio habita em muitos dos que procuram as igrejas, os templos e os terreiros e não podemos esquecer que todos estamos sujeitos a todo o instante às variáveis que tornam tão frágil a a nossa vida como encarnados. Orai e vigiai, mas sobretudo vigiai-vos a vós próprios e não ao vizinho já que somos responsáveis pelos nossos actos e não pelos dos outros.

 

 

Francisco d'Ogum

Pai Pequeno


Terreiro Pai Oxala e Mãe Iemanja


publicado por Terreiro Pai Oxala Mae Iemanja às 23:48 | comentar | favorito
tags: