Dia 19 Louvamos Omulu e Oxalá

Saudações fraternas a todos os irmãos que seguem o nosso trabalho um pouco por todo o mundo. A internet pode de facto constituir um factor de aproximação e integração da nossa comunidade e possibilita o estreitar das distâncias físicas que nos separam.

Hoje pretendo tão-somente fazer uma introdução à sessão do próximo sábado dia 19 de Dezembro na qual comemoramos Omulu e Oxalá. Porquê então, louvar estes dois Orixás em simultâneo e logo na última sessão do ano de nosso terreiro? Bem, por um lado seguimos um calendário de comemorativo com grande influência do sincretismo com o catolicismo e onde surge dia 17 de Dezembro como dia de São Lázaro e onde o Natal de Jesus de Nazaré pontifica. Mas vamos mais além neste entendimento.

Omulu tal como os santos católicos que com ele foram sincretizados trazem-nos o mistério da morte, da passagem e da transformação do corpo físico. O Orixá Omulu é ainda referido por Obaloaê, pois na origem africana eram de facto distintos sendo este último apresentado como jovem senhor da Terra e o primeiro como o Velho senhor da doença e da morte. A umbanda juntou-os num pré-sincretismo já que ambos revelam faces de um mesmo mistério: A alquimia da vida e da morte! Senhor da Calunga-pequena, por ser este um local de depósito da matéria e das energias em desagregação no processo de decomposição, tem no entanto a dupla capacidade de "cura" e de morte! Tal como Lázaro se levantou dos mortos por intermédio de Jesus, também Omulú pode de facto restaurar a vida aos moribundos, se tal fizer parte de desígnios maiores! Calunga-pequena poderá considerar-se todo o local ou locais de depósito de restos funerários e estes variam consoante a geografia e a cultura em que nos encontramos, desde logo os cemitérios, mas também os fundos dos rios no caso das piras funerárias com o posterior lançamento de cinzas nestes cursos de água (Ganges na índia por exemplo) e por fim nos mares tal como o ritual que era executado pelos vikings. Também os hospitais vibram sob a égide de Omulu pois nestes se curam e perecem simultaneamente, milhares de seres humanos, diariamente em todo o mundo.   Na terra, tivemos origem e a ela nossa matéria retornará um dia. Omulu é ainda a argamassa que molda a existência física de modo a possibilitar um habitáculo para nossas almas; nas águas foi originada a vida, mas o caldo primevo que deu origem à vida era constituído por minerais (terra) e como elementos básicos, banhados pela luz solar como fonte energética bem como as emissões geotérmicas das profundezas, aliando energia, água e minerais! Os mesmos constituintes que são a base de toda a  existência biológica!

Mas o que tudo isto tem a ver com Oxalá? Tem tudo. Mas antes vamos recuar um pouco às culturas europeias, pré-cristãs e entender que sempre existiram rituais de passagem do solstício de inverno que ocorre à volta de 22 de Dezembro. No nosso hemisfério as estações são muito marcadas e se a primavera é o despontar da vida, o verão a maturidade, exuberância e abundância, o Outono marca o inicio da decadência que culminará no inverno símbolo de morte! A temperatura ambiente cai gradativamente desde Setembro, as árvores de folha caduca, que povoam em grande maioria o nosso continente, amarelecem e caiem e a vida recolhe ao interior dos seres, pois é necessário deixar cair o supérfluo de modo a resistir com todas as reservas de energia acumuladas do verão! Aparentemente tudo dorme e morre, mas a vida continua no interior dos seres. Nesta altura existe para todos os que são sensíveis, um clima de nostalgia e tristeza no ar que pode passar desapercebido quando nos deixamos embriagar na loucura do consumismo que todavia não consegue preencher o íntimo de nossos seres e por isso mesmo aprofunda o abismo em que muitos se deixam cair, sem esperança, sem calor humano, sem luz interior, não é possível sobreviver ao inverno de nossas vidas! As estatísticas mostram aliás uma taxa de suicídios mais alta que o comum precisamente neste época natalícia, em todo o velho continente; sinónimo de falta de esperança e de sentido de vida que os exercícios  de alegria artificial imposta pela sociedade mercantilista não conseguem iludir, a não ser àqueles que ainda crêem que o ter é mais importante que o ser. Entra-se  no inverno e sob influência de Saturno,   planeta regente da morte e da transformação. Jesus Cristo, o Cristo planetário, surgiu como um farol de amor e espiritualidade anunciando a esperança aos homens precisamente na entrada do inverno!

E aqui está precisamente a ligação que vos pretendia mostrar: Omulu senhor da Terra e da Morte reina nesta estação obrigando a uma selecção natural ao mesmo tempo que a luz de Oxalá brilha como um farol apontando a via da salvação! É obviamente uma época de reflexão interior, de recolhimento e de solidariedade. Talvez seja mais evidente este sentimento num continente que gela e aguarda o ressurgimento da vida. Cuidemos pois de nossa evolução espiritual, concentremos nossas energias naquilo que é essencial, fazendo como as árvores ou seja, deixando cair o supérfluo. Creio que  nos aproximamos também a nível civilizacional de um longo inverno que significará inevitavelmente a morte do que está velho e caduco, com proporções ainda indefinidas mas que devemos aproveitar para refundar as nossas sociedades em valores espirituais mais elevados!

Celebremos pois Senhor Omulú no seu rigor que separa o trigo do joio e louvemos simultaneamente Oxalá nosso rei e senhor que certamente continuará a iluminar nesta travessia que teremos forçosamente de cumprir.

 

Francisco d'Ogum

 Pai Pequeno

publicado por galileu às 19:38 | comentar | favorito