OXALA

   

    Mais uma vez saúdo a todos que nos acompanham nesta caminhada umbandista em terras lusas. Hoje  venho falar  um pouco sobre Oxalá: Orixá da fé, da Luz maior, da espiritualidade e do Amor de Deus. Este Orixá assume na Umbanda a posição de regente entre os demais já que tudo conflui afinal de contas para ele; a sua cor representativa é o branco, não só pela simbologia da cor com a ausência de mácula, mas também por ser esta cor uma súmula de todas as demais, o branco é aliás uma cor que reflecte a luz e por isso é utilizada em determinados ambientes de calor extremo na pintura das casas e nas vestes e curiosamente esse é um dos lemas da umbanda, que o seu hino espelha : " ... reflectiu a Luz Divina em todo o seu esplendor , veio do reino de Oxalá onde há paz e há amor...",  e essa a premissa do umbandista : não querer essa Luz só para si mas divulga-la e doá-la, expandindo-a cada vez mais.

 

Na África, cultuavam-se vários tipos ou qualidades  de cada Orixá e no caso de Oxalá evidenciam-se entre os demais: Oxaguiã e Oxalufã. Popularmente , nos cultos onde ainda continuam a ser veiculados, estas qualidades de Oxalá são também designadas por Oxalá novo e Oxalá velho! Por facilitar o sincretismo com Jesus de Nazaré, passou a ser evidente a conotação de Oxalá novo (OXAGUIÃ) com o menino Jesus e a proximidade do Natal e do Inverno, uma época em que a escuridão, a fome e o frio exige um forte espírito de família e solidariedade para ajudar a sobreviver aos rigores do tempo ; sendo Oxalá Velho (OXALUFÃ) sincretizado com Jesus ressuscitado, a Páscoa é também a saída do Inverno, entrada na Primavera que é no nosso hemisfério uma estação de promessa de vida., mas uma lembrança dos sacrifícios que todos tivemos que fazer para sobrevir , como que um aviso pelo retorno ao inverno no fim do ciclo, um sério aviso aos perigos do esbanjamento em tempos de fartura que se adivinham. A simbologia é efectivamente forte visto que a vinda do menino representa na herança dos cultos pré-cristão na Europa, o alento  que  nos ajuda  nos  tormentos que se advinham  em oposição ao fim deste período com a Páscoa  . Independentemente da geografia e cultos praticados, o humano na sua condição mais ancestral vivia de forma equilibrada respeitando a natureza vivendo-a em cada instante, local e manifestação como uma expressão divina. Uma vez perdida esta ligação sagrada a natureza, o homem perdeu-se num deslumbre pelo seu próprio poder e o poder tornou-se a conquista maior para os mais audazes! Perdeu-se paulatinamente o respeito pela natureza e pelo seu semelhante, em seu lugar foi muitas vezes alimentado o temor, de modo a controlar tudo e todos e assim perpetuar  o poder de alguns. Jesus surgiu como uma pedrada no charco ao encarnar no centro do mundo então dito civilizado! Contra a exploração, contra o abuso, pela liberdade, pela fé , pelo amor e pelo perdão! Fizeram-no pagar caro, mas ao ser transformado em mártir passou deter um poder ainda maior! Em seu nome muita destruição se fomentou de forma vil, assim mostra a história da humanidade. Hoje, tal como então continuam a chocar entre si as várias formas de culto, religiões, crenças e até seitas. Levará ainda muito tempo até que a sociedade humana consiga aceitar as diferenças, pelo menos se entendermos esta sociedade de uma forma global e não apenas circunscrita a um grupo de países ou continentes! Temo vivido no esbanjamento da nossa primavera e verão que nos pareciam não ter fim, num egoísmo que nos impedia ver que ao nosso lado outros passam pelo inverno de suas vidas! Agora que as sombras ameaçam mergulhar tudo e todos numa era de necessidade, olhamos desconfiados pois a maioria perdeu a solidariedade e o espírito de união que nos devia caracterizar, deixando-nos muito mais sós e amargurados perante a expectativa do tormento que se adivinha.Afinal a vida continua submetendo-nos aos seus ciclos. Só não vê quem não quer ver.

 

A libertação, do estágio evolutivo em que nos encontramos e que nos leva a aceitar a violência e a fome só ocorrerá efectivamente quando todas as almas forem livres e suficientemente iluminadas para tal! Até lá muitos necessitarão perder-se nos meandros do poder, da gula, da mentira...outros por outro lado virão como mártires, outros como catequizadores, almas abnegadas que se entregam em sucessivas encarnações para continuar uma missão nunca acabada: levar a luz onde ela ainda não chegou! A evolução do mundo, a nossa evolução,  depende tal como sempre dependeu destas duas forças opostas. A lei do Karma equilibra e submete a todos às duras provas do aprendizado feito entre vidas. Possamos nós entender melhor nosso pai Oxalá, seu amor infinito ! Que desta forma possamos evoluir e ajudar a evoluir todas as almas em nosso redor! Que Ele permita que encontremos o éden aqui neste mundo, com o respeito e amor entre todos os homens, mas também com o planeta que é e será nossa casa até ao fim de nossa missão, nesta e nas vidas que virão! Que possamos restabelecer o equilíbrio com a natureza e possamos recuperar o respeito por todos os espíritos que nela habitam, sejam eles humanos, animais, plantas ou outros. 

 

    O termo oxalá tem origens ainda pouco claros mas algum afirmam ter chegado a nós dos povos sarracenos e transformou-se na nossa lingua num expressão de esperança. É pois com esperança que me despeço,

 

Francisco d'Ogum

Pai Pequeno

 

publicado por galileu às 16:20 | comentar | favorito
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