A compreensão da Umbanda

A compreensão da Umbanda, da espiritualidade e da existência imaterial continua distante da grande maioria … isto mesmo temos vindo a constatar de ano para ano através dos problemas que motivam a deslocação de muitos dos que nos procuram (creio que não cometo nenhum erro ao dizer que o mesmo se passará com os demais centros, terreiros ou casas de Umbanda em Portugal).

            Esta constatação deixa-nos por vezes consternados quando as pessoas se dirigem a uma Entidade Espiritual sem sequer demonstrar consciência da natureza desta, seja pela forma  ou pelo conteúdo da sua comunicação! Se alguém, por pouco instruído ou sensível que seja, tivesse a consciência de estar efectivamente a comunicar com um espírito,   além do mais que por sua iluminação se encontra na posse de uma experiência vida e pós-vida muito para além daquilo que nós, simples almas presas ainda no ciclo da reencarnação, podemos almejar no nosso plano actual (e provavelmente por muitas encarnações futuras que possamos desfrutar), será que esse mesmo indivíduo encetaria uma conversação sem  um mínimo de demonstração de respeito... como acontece aliás quando se sentam em frente a um preto velho e começam a "despejar" os seus problemas e "interesses", sem sequer esperar uma instrução nesse sentido? Claro está que nossos cambonos acabam por intervir muitas vezes educando e corrigindo comportamentos, já que as entidades silenciam muitas vezes o agrave cometido por compreensão do estágio básico evolutivo e até por um amor deveras desapegado de reconhecimento como só eles o sabem demonstrar,   mas para além do facto em si, a meu ver estes pequenos gestos e reflexos demonstram por outro lado que o indivíduo em causa não interiorizou em sua consciência a respeitabilidade e deferência  merecida pela Entidade!

            E quanto ao conteúdo das comunicações? Bem... sem querer invadir a reserva de privacidade que as mesmas merecem de nossa parte, tenho que lastimar o conteúdo materialista de grande parte das mesmas... negócios que não andam e dúvidas quanto a investimentos são a meu ver o cúmulo daquilo que venho expondo há muito  quer nas missivas que escrevo, quer localmente quando me dirijo ao público em cada sábado no período reservado para tal antes mesmo de abrirmos as sessões. Impreterivelmente estes mesmos temas entre outros de igual despudor, são apresentados às nossas queridas entidades pelos que se apresentam a uma consulta!

              A consciência espiritual que todos esperamos que se venha a expandir a nível global é ainda uma miragem no início deste milénio, pois o que vemos na grande maioria não é mais que uma simples "fezada", uma "crendice" ou qualquer outra coisa que dificilmente posso catalogar mas por certo não é aquilo que gostaríamos de ver crescer:   amor, fé, esclarecimento e iluminação dos espíritos  quanto à nossa essência enquanto seres humanos, nossa origem divina e nossos compromissos de evolução. Por outro lado, não posso deixar de lamentar o alimento dado por muitos à "crendice", mediocridade e "interesse"  destes mesmos indivíduos já que em muitas casas que se dizem umbandistas ou espíritas, não fazem outra coisa  que não seja prometer o céu na terra, soluções fáceis e panaceias para todas as necessidades, muitas vezes por ausência de ética, quer por parte dos dirigentes e constituintes dessas egrégoras quer pelo total misticismo que vimos presenciando. A estas mesmas pessoas que procuram numa entidade Superior,   uma solução de Gestão empresarial ou uma "amarraçãozinha" de anjo da guarda de alguém (como se o livre arbítrio fosse algo menos que um crime hediondo), a estes só parecem válidos e  valiosos os que tudo prometem e os que põem a mão em todo o tipo de trabalhos sem se importunar com questões éticas ou morais! Bem pelo contrário... aqueles que mostram escrúpulos são prontamente identificados como "fracos médiuns" e as casas a que pertencem e que procuram remar contra a maré, acabam por ser descartadas como pertencendo a uma categoria inferior pois não correspondem à lei do mercado, como se estivessem numa qualquer bolsa de mercadorias em  que tudo se vende, tudo se compra...

              Esta mesma postura já nos custou amiúde alguns dissabores pois implica um posicionamento constante de todos quantos pretendem fazer parte desta congregação, impondo limites e desagradando a todos os que connosco pretendem caminhar sem connosco comungar... se é que me faço entender...

            Agora que a época de ferias acaba e o Outono se aproxima a passos largos, misturando a depressão pós-verão com a crise económica que grassa por toda a Europa e particularmente no nosso país, advinham-se dias difíceis de busca incessante em nossa casa das mesmas promessas que outros apregoam!

            A todos os que possam estar lendo estas linhas eu espero tocar  de alguma forma o e assim esclarecer no sentido da nossa obra, a qual não se interessa pelo volume da procura nem tão pouco pela presença ilustre de nossos membros em feiras, congressos e eventos sociais; aqui se busca tão-somente a caridade verdadeira e o esclarecimento espiritual; procuramos fomentar o trabalho, o estudo, o aprimoramento moral a par do culto da humildade e esperança! Não temos nada contra a busca do bem-estar material desde que subjugado aos valores citados e em local próprio e que nunca deveria ser num templo.  

            O nosso objectivo é servir bem, respeitar e fazer respeitar um compromisso assumido com o Astral Superior neste mesmo sentido. Não procuramos crescer... encaramos o evoluir de nossa casa como encaramos o evoluir de um organismo vivo que nasce, cresce e  se devidamente alimentado prospera para um dia morrer na forma actual para então renascer para uma nova vida!

            Tudo é afinal transitório excepto  o mais subtil, o mais essencial e o mais sublime... Deus e sua obra na sua essência espiritual! É para isto que trabalhamos.

 

                    Francisco de Ogum

                          Pai Pequeno

      Terreiro de Umbanda Pai Oxala e Mãe Iemanja

publicado por galileu às 19:53 | comentar | favorito
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