Ancestrais ilustres Portugueses na Umbanda.

A vossa bênção meu, Caboclo, benção meu Preto Velho...

 

A Umbanda assenta na premissa do poder da vontade Divina manifestada através dos Orixás na criação e manutenção dos espaços físicos e espirituais e simultaneamente reconhece, enaltece, preserva e fundamenta o Axé nas manifestações dos Orixás nos reinos naturais e espirituais (os Orixás não são a natureza mas manifestam-se nesta). Os altares naturais da terra são pontos de força destas manifestações poderosas: terra, agua, ar e fogo expressos nos oceanos, rios, florestas, campinas, pedreiras (montanhas, ravinas, etc) só para mencionar alguns. Na natureza buscamos limpeza e energia, saúde e regeneração e a ela devemos a vitalidade do Axé ou seja da manifestação vital. No entanto, a Umbanda exerce a sua actividade essencialmente no contacto com os planos espirituais, sendo que também aqui no campo do sobrenatural se expressa a vontade dos Orixás: através dos Ancestrais ilustres.

 

Ancestrais são então aqueles que nos precederam e ilustres por terem sido marcos importantes na evolução espiritual e por continuarem a ser veículos de transmissão dessa qualidade divina e da vontade dos nossos Orixás, fazendo eles a ponte para a transmissão do conhecimento, sendo Guias da humanidade na sua evolução espiritual, como decerto acontece noutras religiões ainda que obedecendo a outras apresentações e envolvências culturais (ver o exemplo dos apóstolos no Cristianismo e do profeta no Islamismo). Sendo a nossa religião originária do Brasil ainda que mesclando saberes e culturas de três continentes distintos (Américas, África e Europa), continua sendo no entanto marcada pela presença, exclusiva tanto quanto podemos perceber, de Entidades que se apresentam como ancestrais Ilustres do Brasil. O Caboclo, o Preto Velho, o Boiadeiro, entre outros são na realidade verdadeiros ícones do Povo Brasileiro na sua origem.

 

De tempos a tempos somos interpelados, quer pelo frequentador Português anónimo do Terreiro quer por irmãos de fé no Brasil, sobre a possibilidade da aparição de entidade de cunho Português, uma vez que se pratica esta religião continuamente no nosso país em diversos templos. Como resposta costumo dizer que desconheço se existe ou não alguma Entidade de cunho Português, actuando em algum terreiro mas acredito que existam espíritos com alguma encarnação anterior neste espaço a que chamamos Portugal a militar numa qualquer falange , eventualmente respondendo pelo nome de seu mentor, um Caboclo, Exu, Criança, etc.

 

Por um lado o espírito não tem fronteiras e as reencarnações obedecem a outros requisitos bem mais importantes para a evolução do Homem do que propriamente o espaço geográfico, linguístico ou cultural em que viveu. Por outro lado, a Umbanda está dando os primeiros passos fora do país em que nasceu. Temos ainda que reconhecer que os espíritos iluminados são na sua essência humildes e despem-se de individualizações que em nada iriam acrescentar às suas comunicações, como seja nacionalidade, profissão e status social; é óbvio que existem muitas escolas de evolução a que chamamos vulgarmente religiões e essa diversidade responde à necessidade dos povos, mas ao aderir a uma corrente ou escola, deve o espírito obedecer aos preceitos nela praticados, neste caso a identificação das entidades de acordo com os seus líderes e mentores. Temos necessariamente vários Caboclos da Lua, vários Pais Beneditos, sendo que todos eles militam numa corrente e numa linha , falange, sub-falange, etc, que responde como é óbvio ao primeiro e verdadeiro Caboclo, Preto-Velho, Boiadeiro, etc detentor desse nome. Por outro lado temos a questão do potencial simbólico transmitido pelo imaginário comum quanto se houve falar destes verdadeiros ícones de identificação de um povo. Tomando como exemplo o Caboclo, diria que ele é o Homem na sua acessão natural; em equilíbrio com o meio ambiente, conhecedor dos espíritos que habitam a natureza e exímio utilizador das plantas em banhos ritualisticos e de limpeza, defumações, detentor do conhecimento e do poder da cura pelas plantas, respeitador dos vários equilíbrios que se estabelecem nos ecossistemas que habita, etc. Se outrora foi considerado atrasado e sem civilização pelo homem branco dominante, tal como o s nossos queridos Pretos-Velhos escravizados e humilhados na sua qualidade humana, não é menos verdade caminhamos felizmente ainda que devagar para um verdadeiro reconhecimento destes povos , nos seus valores e culturas e entre aqueles que abraçam a espiritualidade , ou tão somente ecologistas convictos, cresce o respeito pelos conhecimentos ancestrais que possuem. Por outro lado, estes são símbolo ainda muito vivos e actuais, visto existirem ainda indígenas e por outro lado a escravatura acabou há muito mas na realidade subsistiram ainda situações pontuais de escravidão até ao século XX.

 

Se tentarmos encontrar ícones do Povo Português, recorremos quase sempre ao descobridor do século xv, que não abona a favor dos direitos humanos, quanto mais da evolução espiritual, pois tratou-se de um período de corrida aos tesouros de outros povos e continentes e mergulhou-nos na triste senda da escravidão; podemos ainda recorrer á raiz discutível deste povo já bastante mesclado por diversas raças (moçárabes, romanos, celtas, bárbaros do centro e leste europeu, cartagineses, etc) falo do povo Lusitano que era de facto bastante guerreiro e tinha ainda algumas práticas sanguinárias, tal como muitos daqueles que povoaram este espaço por milhares de anos antes de nós. Na verdade a história dos povos está repleta de vingança, sangue, ódio, enfim de um role interminável de situações históricas (inquisição na idade média ou sacrifícios humanos no período romano e pré romano, 2 guerras mundiais) que serviram para aprofundar o carma individual e colectivo destas nações. Veicular a ideia de optimismo é por si mesmo equivalente a remar contra a maré neste Velho mundo, cansado de uma história longa de destruição. Se falarmos no aspecto natural, podemos também verificar que exterminámos florestas, habitats inteiros empobrecendo essa mesma natureza em prol da agricultura e posteriormente da industria e assim reduzimos a quantidade de Axé que podemos usufruir das suas fontes como já referi. Claro que existem homens e mulheres bons, evoluídos e movimentos de progresso humano, mas o ambiente e a simbologia patentes nas diversas culturas europeias estão contaminadas por um passado de trevas.

 

Por tudo isto e porque a Umbanda se pratica por cá somente há cerca de 2 décadas (meia dúzia de anos de forma exposta e publica) creio ser ainda cedo para que se manifestem entidades de matriz cultural portuguesa ou europeia. Aguardo no entanto que tal suceda um dia, mas até lá verifico com agrado que aqueles que nos procuram, sendo na sua maioria portugueses, não sentem contudo qualquer barreira no contacto com as nossas queridas Entidades, nas suas exposições, escutando os seus conselhos e seguindo os seus ensinamentos, mostrando afinal que somos bem mais receptivos do que á primeira vista podemos parecer. Espero nesse sentido que Portugal possa servir de chão fértil para uma disseminação da religião por outras nações deste velho continente.

 

Saravá Umbanda,

 

Francisco de Ogum

Pai Pequeno

Terreiro de Umbanda Pai Oxalá e Mãe Iemanjá

publicado por Terreiro Pai Oxala Mae Iemanja às 17:11 | comentar | favorito